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“Defesa do SUS será pilar de enfrentamento nos próximos anos”, afirma Guilherme Boulos no Congresso do Sindicato
30/11/2017

Será uma longa jornada de trabalho. A manhã do segundo dia de Congresso do SindSaúde/SC começou com a plenária lotada e atenta para escutar ao coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Sem Teto Guilherme Boulos. A palestra intitulada “De que lado você está? Reflexões sobre a conjuntura brasileira” começou demarcando posição: “este momento de grave retrocesso ficará marcado nos livros de história como um golpe fatal contra o povo brasileiro”.

O recado de Boulos para a categoria da saúde foi contundente: a defesa do SUS será um dos eixos principais do enfrentamento nos próximos anos. “E deve ser uma defesa feita pelo conjunto da sociedade, mas vocês que estão na linha de frente, que estão sofrendo na pele o sucateamento do SUS, vão precisar mais do que nunca estar sintonizados com outras frentes, outras categorias, outros sindicatos, para enfrentar”, enfatizou.

Boulos é filósofo e psicanalista, atua no MTST desde 2002, e atualmente é cotado como possível candidato a presidente. Segundo ele, apesar da conjuntura extremamente desfavorável de “desmonte dos grandes pactos nacionais do último século”, a grande batalha da classe trabalhadora deve ser para resgatar a esperança de um futuro melhor para o Brasil.

“Não pode ser só uma resposta contra o ataque que foi feito. Precisamos no meio desse processo recuperar o sentimento de solidariedade de classe que se perdeu. Através desse vínculo que a solidariedade proporciona, discutir uma agenda de transformação social profunda, sem se ater às eleições. O debate precisa ir além disso, na reconstrução de um campo amplo, de esquerda, popular e democrático no Brasi”, defendeu o militante.

A análise de conjuntura apresentada por Guilherme Boulos teve foco no período recente de governo de Michel Temer (PMDB), cuja ação começou pela desvalorização do serviço público, criando uma desvalorização salarial para a grande maioria das classes, mexendo nos pactos trabalhistas de quase 100 anos, permitindo a terceirização irrestrita.

Em seguida, tratou das consequências da aprovação relâmpago da Emenda Constitucional 95 e a consequente institucionalização dos cortes nos serviços públicos essenciais pelos próximos 20 anos: “amarra até o melhor dos governos. Podemos eleger até o Papa para presidente que, se não tiver 3/5 do Congresso, não vai conseguir governar para as maiorias”.

Os impactos para o SUS

O SUS será um dos principais atingidos por esse desmonte proposital. De acordo com análise de Boulos, se esse regime fiscal for de fato implantado, “o SUS não dura 5 anos no Brasil”.  Ainda segundo o palestrante, se depender do atual ministro da saúde Ricardo Barros – “um criminoso financiado pelos planos de saúde privado” –, a lógica será a mesma das privatizações dos anos 1990: sucatear para vender empresas com grande potencial lucrativo a preço de banana.

É nessa espreita que se encaixam os já cogitados como modelo substitutivo ao SUS planos populares de saúde. “Se eles conseguirem sucatear o sus de fato, ainda é possível que consigam apelo popular para uma proposta como essa”, alertou.

Assim como a saúde, o governo de Temer atacou diretamente da mesma forma os outros dois pilares fundamentais da Constituição de 1988: educação e previdência. Neste ponto, Boulos lembrou do importante papel da mobilização trabalhadora para barrar a contrarreforma da previdência, destacando as greves de 28 de abril e 24 de maio.

Em pauta novamente para ser votada nos próximos dias, ainda que reduzida se comparada ao projeto original, a Reforma de Previdência, para Boulos, não será votada no ano que vem, ano de eleição. “Por isso, dia 5 de dezembro temos de construir ampla mobilização, greve geral  para barrar a votação da Reforma. Se segurarmos até ano que vem, não votarão mais”, argumentou.

Por fim, Boulos destacou ainda atitudes que considera fundamentais para encarar a conjuntura atual. Uma delas seria construir um processo amplo de unidade entre trabalhadoras/es, valorizando as bandeiras comuns: ser contra Michel Temer, como de fato 97% dos brasileiros são, ser contra as contrarreformas e buscar uma saída democrática para a crise. Boulos lembrou das tentativas históricas de implementação do parlamentarismo no Brasil, sempre derrotada em consultas populares, e alertou para o ressurgimento dessa possibilidade pelo mesmo grupo que praticou o golpe de estado que colocou Temer no poder.

De acordo com Boulos, é necessário também recuperar a capacidade de mobilização. O movimento sindical e social brasileiro perdeu capacidade de mobilização que já teve no passado, em parte, porque se acomodou nas instituições e deixou de fazer trabalho de base, de dialogar diariamente com as categorias. Para o líder do MTST, o trabalho deve ser de confiança e continuado. Ele alertou ainda para a influencia da mídia oligopolizada na construção de uma consciência acrítica e despolitizada, com base no discurso de desmoralização da luta social. “Discurso hipócrita pois esconde que na nossa história não há nenhuma conquista social ou democrática que não tenha sido fruto de luta”, finalizou.

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